Blog do AMIGO DO TRÂNSITO

Espaço para a livre manifestação sobre questões do trânsito brasileiro. Criado pela Ong TRANSITOAMIGO funciona como Tribuna Livre para críticas, denúncias e elogios. É também um espaço para a vítima, seus familiares e amigos.

21/3/09

NÓS TRANSGRESSORES…

"A INFRAÇÃO DO BEM"

Gostaríamos de ver no trânsito uma expressão de cidadania, um modo de partilhamento do espaço das vias públicas, ordenado por regras comuns e impessoais. Mais do que uma necessidade vital individual, transitar seria um exercício cotidiano de solidariedade, gentileza e, sobretudo, respeito à integridade de cada pessoa, especialmente daquelas cujos deslocamentos as colocam em posição mais frágil na cidade - os pedestres.

Entretanto, transitar é transgredir regras em nossa sociedade. Nosso modus vivendi nas ruas é um exercício sistemático de submissão da lei a interesses individuais. A novidade nos últimos 10 anos, a partir da municipalização da gestão do trânsito, foi que o poder de fiscalização das condutas aumentou significativamente e isso acabou revelando nossa não-cidadania de todos os dias.

Veja o que acontece na cidade de São Paulo: o descumprimento das regras do trânsito é flagrado e autuado pela fiscalização, aproximadamente quatro milhões de vezes a cada ano. Parece muito, mas, é bem pouco se considerarmos que por dia circulam cerca de quatro milhões de veículos na cidade. Ainda assim, vale analisar um detalhe desses números: quase a metade desses flagrantes é realizado eletronicamente e diz respeito a apenas uma das centenas de infrações previstas pela lei - o excesso de velocidade. Como não é aceitável imaginar que as pessoas, milhões delas, avancem o limite de velocidade por esquecimento ou porque desconheciam que havia um limite naquela via, os sensores inquestionáveis dos radares capturam um fenômeno muito mais profundo: a insubmissão deliberada dos indivíduos às condutas prescritas pelo Código de Trânsito. O condutor corre porque QUER correr, propositalmente, intencionalmente.

A transgressão das regras de circulação não é uma exceção, nem pode ser compreendida como um comportamento patológico de certos indivíduos. Ao contrário, transgredir a regra é uma prática generalizada, que se desdobra em pequenas atitudes, sempre justificadas pelas circunstâncias da vida agitada da metrópole - são as ”infrações do bem”.

Por exemplo, correr além do limite da velocidade da via, se não for muito abusivo, é uma infração "do bem", que pode ter várias justificativas: uma mulher em trabalho de parto, uma entrevista para um emprego e até uma insuportável dor de barriga.

É por isso que todos têm tanto ódio dos radares - eles tratam com rigor excessivo o que não é considerado verdadeiramente uma "infração". Correr 12 km/h além do limite da via, por exemplo, é perfeitamente aceitável; é uma "pequena infração", comparada a correr a 120 km/h, quando a velocidade máxima é 60 km/h. Qual é o mal que pode causar 12 km/h a mais? Isso torna alguém um assassino, um criminoso, um bandido? Engraçado é que as pessoas detestam os radares, mas, não são contra radares; a opinião geral é que eles são ”muito importantes” para impedir a violência dos ”loucos que correm pelas ruas a mil por hora”.

A infração "do bem" é isso uma adaptação momentânea da regra: a pessoa estaciona o carro em fila dupla, mas, ‘’só por um minutinho”, atende ao celular enquanto dirige, mas, ‘’só pra desligar”, estaciona o carro sobre a faixa de pedestre, mas, "só de noite, quando não tem ninguém passando", bebe uma ou duas latas de cerveja, mas, "está ótimo para dirigir"; a lista de exemplos seria infinita. São atos de esperteza, uma prova do ”jogo de cintura” da nossa cultura. Mas ninguém é contra o Código de Trânsito; isso nem se discute! Na maior parte das vezes, a regra até é seguida pela maioria das pessoas. Quando se julga, porém, que é necessário suspendê-la, isso é feito sem grande remorso.

Quem arrisca uma ”infração do bem” sabe, em primeiro lugar, que sua atitude é uma transgressão e que ela depende da inexistência da fiscalização e, por conseguinte, de uma garantia de impunidade. A ”infração do bem” existe no espaço deixado pela inobservância das condutas. Se ninguém viu, qual é o problema de seguir na contramão ‘’só por uns 20 metros?”.

O problema começa quando milhões de habitantes fazem a mesma coisa simultaneamente. Quando falha o ordenamento, prevalece a força dos interesses particulares e, principalmente, sabota-se a previsibilidade das ações no trânsito e sem previsibilidade não há trânsito seguro.

Eduardo Biavati,
sociólogo

Artigo originalmente publicado no informativo de março ABRAMCET NEWS

criado por fernando_pedrosa    10:50:01 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Errar e’ humano. Somente os vivos tem a capacidade de sentir e a de EVITAR o arrependimento.
    Mudar nosso comportamento baseado nas informações educativas e convincentes pode ser A diferença.
    Promover estas oportunidades e influencias positivas e’ nossa missão e devem ser estimuladas para que a plena cidadania seja exercida com serenidade por todos, e assim, suas repercussões alcancem as boas metas e objetivos do Transito Amigo.

    Marcos Musafir
    Vilence and Injury Department
    WORLD HEALTH ORGANIZATION

    Comentário por Dr. Marcos Musafir — domingo, 22 de março de 2009 @ 09:38:18

  2. “A tese do Biavati é muito interessante, a “infração do bem” decorreria de uma avaliação subjetiva, idiossincrática de cada cidadão. Mas tenho insistido com todos os que observam o nosso trânsito exdrúxulo: nossa engenharia de trânsito tem demonstrado uma incompetência monumental, temos aqui no Rio, por exemplo, dois critérios de acesso a uma via de trânsito rápido, um com preservação da faixa dos que chegam à pista de alta velocidade e outro em que não há preservação. Fabrica-se o conflito de tráfego. Não há como condicionar motoristas para dirigir dessa forma. Outro aspecto: os locais de instalação de radares está sendo feita sob pressão dos fabricantes do equipamento, que desejam máximo faturamento, e não máxima educação. O plaqueamento fica caótico, pede-se redução de 80km/hora para 40km/hora em espaço muito restrito de pista, forçando manobras bruscas e perigosas. Acho que precisamos corrigir a circulação via engenharia, educar - usando a televisão, que até agora não se sensibilizou para o assunto - e reprimir fortemente os casos acintosos de agressão às normas que se veem diariamente nas ruas.
    Outra coisa: declara-se conhecimento do Código de Trânsito Brasileiro ao receber a carteira, mas o desconhecimento é generalizado. E a gente vê isso todo dia nas conversões à esquerda, no direito de preferência, na manutenção da distância de segurança etc etc etc “

    Comentário por Jornalista Romildo Guerrante — domingo, 22 de março de 2009 @ 10:04:06

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