Blog do AMIGO DO TRÂNSITO

Espaço para a livre manifestação sobre questões do trânsito brasileiro. Criado pela Ong TRANSITOAMIGO funciona como Tribuna Livre para críticas, denúncias e elogios. É também um espaço para a vítima, seus familiares e amigos.

11/9/08

ROSTO E HISTÓRIA - PRF Marisa

OS OUTROS SOMOS NÓS

Ao ler a série “Rosto e história por trás dos números frios dos acidentes de trânsito”, lembrei de muitas ocorrências que presencio no meu dia-a-dia como policial.
A frieza dos números dos acidentes começa com a naturalização do acidente de trânsito. Muitos motoristas o encaram como “natural”. Acidente de trânsito não tem nada de natural. Pode ser comum, mas não “natural”.
Acidentes de trânsito são evitáveis em 99% dos casos e acontecem na maior parte das vezes por falha humana, entre as quais imprudência, imperícia ou negligência do motorista.
A idéia de “normalidade” dos acidentes de trânsito vem da percepção do senso comum de que em uma cidade grande “acidentes acontecem mesmo”, e que se não houve vítimas e tudo aconteceu por uma simples falta de atenção, “está tudo bem” e segue-se a vida registrando cada vez mais boletins de ocorrência. Tudo muito simples.
O problema é que não é assim. Todo acidente de trânsito merece ser pensado e discutido, tanto pelos envolvidos quanto pelas autoridades. Um acidente sem vítima não pode ser encarado como “sem gravidade”. Afinal, mesmo se um acidente não gerou vítimas por um ou outro fator, aconteceu o acidente, e dele poderiam sair pessoas vitimadas não fosse obra da sorte, vez que os resultados de um acidente não são previsíveis. O que percebo, ao atender várias ocorrências de acidentes, é que os motoristas não demonstram nenhuma preocupação em refletir sobre as causas dos acidentes em que se envolveram. Ou melhor, na maioria das vezes, já chegam com um culpado de plantão: o ”outro”. Entre os policiais, costumamos dizer que este “outro”, se existisse, já estaria respondendo a um sem-número de processos e pobre-de-marré de tanto pagar indenizações.
Mas, será que este “outro’ é assim tão culpado? Quem será este “outro”?
O “outro” é sempre aquele que exime um motorista da culpa pelo acidente. Pode ser um “carro que me fechou”, “um carro que parou de repente e eu desviei” ou mesmo o próprio trânsito em si. O “outro”, nos casos mais revoltantes, pode ser a própria vítima, que segundo os relatos, “me fechou e eu bati”, “atravessou na minha frente e eu atropelei”, “estava muito devagar e me fez ultrapassá-la”, entre outras possibilidades. O outro é sempre alguém que não sou “eu”.
É na frieza dos números de acidentes e vítimas no trânsito que estão estes “outros”. São as vítimas da imprudência, da imperícia e da negligência dos milhares de “eus” que dirigem sem responsabilidade. Que bebem “um pouco” e se acham capazes de dirigir, colocando a vida dos outros em risco; que não respeitam sinais de trânsito; que excedem a velocidade; que ignoram que cada “outro” tem um rosto, uma família e uma história triste para deixar.
Muitos motoristas ainda não perceberam que a distância entre ser o “outro” ou ser o “eu” é apenas circunstancial. A luta por um trânsito mais organizado e pelo direito de ir e vir com segurança passa pela conscientização de que os “outros” somos “nós” e de que o rosto e a história envolvidos nos acidentes também são nosso rosto e nossa história.
Como policial, apesar de todo o esforço de fiscalização, considero que faço parte desta triste cadeia de acontecimentos, quando algumas vítimas, ainda dentro das ambulâncias dos serviços públicos, nos pedem para avisar seus parentes ou quando somos obrigados a informar a morte de alguém em razão de acidente. É neste momento que podemos ouvir a voz do “outro”; daquele que até então não tinha rosto ou identidade mencionado nos relatos dos irresponsáveis causadores dos acidentes, mas que tem um pai ou mãe, ou marido, ou filhos, chorando no telefone, nos implorando por lhes dar mais detalhes e mais informações que lhes possam reconfortar um pouco. E muitas vezes, nós não temos essas informações e nem podemos dar o reconforto pedido.
Que missão difícil é dar uma notícia a um pai do falecimento de seu filho. Entregar a ele objetos pessoais encontrados no veículo: camisetas de festas, CDs, livros que um dia fizeram parte de momentos alegres, hoje embalados em um saco fechado. Muitos policiais, nem conseguem cumprir esta etapa e pedem ajuda a outros colegas. A sensação é um misto de impotência, culpa e solidariedade humana que nos dá vontade de chorar junto com pais, mães e familiares. E seguramos esta vontade de chorar porque é preciso ajudar a família, dar orientações, tomar providências burocráticas e administrativas que, se por um lado são necessárias, não trarão de volta a vida do ente querido.
E depois que tudo termina a família vai para casa. O plantão continua com outras ocorrências. Na minha cabeça, porém, permanecem os rostos de olhos tristes e molhados de cada uma daquelas pessoas, como gritos silenciosos de socorro, como dores que poderiam ter sido evitadas, como vidas que poderiam ter sido preservadas.

Marisa Dreys
Inspetora da Polícia Rodoviária Federal

criado por fernando_pedrosa    14:49:42 — Arquivado em: Sem categoria

9 Comentários »

  1. Tocantes os depoimentos, já passei para vários amigos, meu filho inclusive, pois sempre achamos que issonão acontece conosco.
    Belíssimo o depoimento da policial. Belíssimo e absolutamente verdadeiro.
    A gente está se acostumando a banalizar os fatos mais trágicos e isto sim, é trágico.

    Katia

    Comentário por Katia Araujo — quinta-feira, 11 de setembro de 2008 @ 18:30:02

  2. Na verdade o maoir problema de tujdo iksso é que como proficional vamos perdenedo a aficacia e ficamos frios com nós mesmo.

    Comentário por Lucival — quinta-feira, 11 de setembro de 2008 @ 22:57:17

  3. Ao ler o seu Depoimento, chorei junto com as palavras, pois me fizeram voltar ao passado e constatar a veracidade de tudo o que passei, ao perder a minha única filha num acidente brutal!
    Agradeço á Deus por existir no mundo, Profissionais Competentes e cheios de sensibilidade como você…
    Grande abraço,
    Izabel.

    Comentário por Iizabel — sexta-feira, 12 de setembro de 2008 @ 00:39:18

  4. Muito importante o depoimento desta policial no blog, pois mostra as diversas faces da problemática do trânsito no país. Parabéns à ela como pessoa e profissional e a todos aqueles que se empenham para mudar as tristes estatísticas nacionais.

    Comentário por Bárbara — sexta-feira, 12 de setembro de 2008 @ 15:44:42

  5. É louvável a iniciativa da Inspetora Marisa, na medida em que leva aos leitores uma visão mais humanizada da atuação dos Órgãos envolvidos com a tormentosa questão da violência no trânsito.

    É fato que a pessoa por trás do uniforme sofre no trato com os envolvidos em acidentes. E por mais que estejamos habituados a essa prática, cada acidente, cada vítima, representa que erramos de alguma forma.

    Urge a necessidade de tratarmos a questão do trânsito como algo relevante e esquecermos de vez essa idéia equivocada de que os acidentes de trânsito são permeados pela imprevisibilidade e portanto inevitáveis.

    Comentário por André Luiz de Azevedo — terça-feira, 16 de setembro de 2008 @ 16:10:05

  6. Eu só posso ratificar as palavras que voce de forma tão sensata e real, vem mostrar àqueles que pensam que acidente ou doença só acontece com “o outro”. Devo dizer que como colega de trabalho da Marisa, em toda a minha vida profissional, também nunca me “acostumei” com as cenas que vivi e por isso continuo nessa luta que é de todos nós.
    Conforto e Paz a todos!
    Hélio Dias

    Comentário por Hélio Dias — sexta-feira, 19 de setembro de 2008 @ 02:10:43

  7. Muito obrigado a Inspetora Marisa Reys pela sua admirável lição de responsabilidade. O texto “Os outros somos nós”, escrito por uma pessoa que convive diariamente com o horror absoluto dos acidentes de trânsito, soa como palavras de mãe para filhos. Faço votos para que ele seja lido ou ouvido por muitos jovens.

    Comentário por Paul Chambert-Loir — domingo, 28 de setembro de 2008 @ 08:36:49

  8. Ola Marisa, parabéns pelo seu trabalho e dedicação por um trânsito consciente, precisamos mais da sua presença, em nosso meio, para podermos nos contagiar da diversidade e experiência que você pode nos transmitir, um abraço do Alahir coordenador do projeto de educação no trânsito “O futuro depende de nós”

    Comentário por alahir — sábado, 29 de novembro de 2008 @ 10:14:59

  9. parabnes Marisa

    Comentário por Jair cordeiro de oliveira — sexta-feira, 6 de novembro de 2009 @ 00:16:34

Deixe um comentário

Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://transitoamigo.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o serviço e siga participando do Terra Blog.