Blog do AMIGO DO TRÂNSITO

Espaço para a livre manifestação sobre questões do trânsito brasileiro. Criado pela Ong TRANSITOAMIGO funciona como Tribuna Livre para críticas, denúncias e elogios. É também um espaço para a vítima, seus familiares e amigos.

6/9/08

ROSTO E HISTÓRIA - Carol & Dona Josefa

                     

Perdi minha única filha e minha mãe na mesma tragédia…

Meu nome é Maria José da Silva Amaral e o que houve de mais marcante em minha vida e que foi também responsável por uma mudança brusca na minha direção, expectativas e sonhos, foi a morte repentina de minha mãe Josefa (66 anos) e da minha única filha Carolina (Carol 4 anos e 6 meses), no dia 20 de dezembro de 2000, na Rua Uruguai na Tijuca, Zona Norte do RJ.

Lembro-me como e fosse hoje! Era praticamente Natal. Eu havia saído para trabalhar e as duas resolveram antecipar os festejos e saíram para levar um presente para uma pessoa querida. Quando tentavam atravessar a rua, diante de um sinal na faixa de pedestres que se localizava logo após uma curva, foram colhidas por um ônibus que certamente vinha em alta velocidade. De imediato minha mãe que muito se machucara (acho que ela tentou proteger a neta até naquele momento), foi a óbito no local, enquanto a minha filha, que parecia intacta, faleceu poucos minutos depois, no hospital por traumatismo craniano.

A ocorrência se deu em torno das 14 horas e eu que nunca passava por aquela rua, resolvi retornar por ali, já que dava carona a uma colega que morava nas proximidades. Quando passei vi o movimento, percebi que era um atropelamento e comentei com a minha colega o quanto deveria ser difícil perder um parente naquela época de natal. Foi quando recebi um telefonema do pai de Carol, de quem eu me separara em 1998 (vivemos 14 anos juntos e amávamos muito nossa filha), e constatei que todos estamos sujeitos a violência do trânsito. Aquela infeliz ocorrência que eu vira anteriormente envolvia exatamente as duas pessoas que eu mais amava na vida (ainda as amo), minha mãe e minha filha.

A partir daquele momento, nascia outra Maria José que, enfraquecida e só, precisava buscar forças para lutar por justiça. Assim, dolorida, vazia e sofrida, conheci pessoas que de alguma forma queriam tirar proveito daquele momento e ainda muitas outras como Vera Dias Carneiro (vítima e militante respeitada já falecida) que muito me auxiliaram na busca incansável que uma vítima de trânsito trava na tentativa de amenizar um enorme sentimento de impotência através da justiça.

Nunca me revoltei. Não briguei com Deus e me mantive crente na justiça dos homens, mesmo sabendo que este caminho envolvia longo percurso (por incrível que pareça, no meu entender é muito mais difícil quando um acidente envolve uma empresa de ônibus).

Durante esses quase 8 anos passei por muitas fases. Fui acusada e mal entendida, mas nada disso me fez parar. Nem mesmo no dia em que, no Fórum, diante de várias pessoas que participavam do julgamento, ouvi a desembargadora dizer que minha mãe morrera porque atropelara o ônibus e minha filha porque caíra do colo dela (vale lembrar que minha mãe não era louca e nem minha filha andava no colo). Saí dali triste, acompanhada por amigos e militantes da causa. Decepcionei-me, mas a luta continuou e o caso foi parar no Supremo.

Quanto à questão civil, após 7 anos de troca de farpas e dor das feridas sem cicatrização, chegou-se a um acordo. Longe ainda do valor da vida da minha mãe e da minha filha, tendo em vista que nada neste mundo pagaria o que eu perdi e por elas (que me davam tanta felicidade) eu seria capaz de dar minha própria vida.

Na esfera administrativa (Comissão Cidadã do Detran/RJ), o motorista, apontado como responsável pela ocorrência, foi autuado, conforme Art. 160 do CTB (apreensão da CNH para novos exames e curso de reciclagem).

Em 2003, após participar de entrevistas em jornais, revistas e TV, criei o Projeto Navi (Núcleo de Apoio à Vítima de Trânsito no Detran/RJ), que com o objetivo de trabalhar questões emocionais, sociais e jurídicas envolvendo vítimas de trânsito, tem colaborado com muita gente e continua a disposição de todos aqueles que necessitarem.

Eu, durante esse tempo, muito aprendi. Conheci várias pessoas e com algumas sofri, pois estas traziam cicatrizes como as minhas, escrevi livros (o último escrito a ser lançado tem o título provisório de Seguindo a Estrada - Trajetórias de Perdas Repentinas no Trânsito), fortaleci minha fé, ajudei e muito fui auxiliada por várias pessoas.

Fiquei muito satisfeita com a aprovação da Lei 11.705/08, pois não agüentava mais ouvir com tanta freqüência que condutores alcoolizados tinham tirado a vida de inocentes. Tenho colaborando bastante com os voluntários do Navi na luta que o Fernando Diniz iniciou em relação às penas alternativas, em vias de também se tornar lei. Afinal, trocar vidas por cestas básicas não justo nem edicativo e jamais mudará este quadro de violência impune.

Espero de fato que as lei se tornem cada vez mais severas e coerentes com a gravidade das questões que envolvem o trânsito e os motoristas. Também espero que outras pessoas interessadas em trabalhar com vítimas de trânsito surjam pois, pela minha experiência após passar pelo trauma, todos passam a ver o trânsito de forma diferente transformando-se em ótimos multiplicadores de boas condutas no trânsito.

Finalmente, gostaria de lembrar que precisamos começar a levar em consideração os danos subjetivos e emocionais que ultrapassam a dor física da perda. Muitas vítimas e parentes não morrem nos acidentes, mas tornam-se verdadeiros mortos vivos, vítimas da depressão pós-trauma, uma situação que mexe com a qualidade de vida das pessoas e com a economia do País.

 

criado por fernando_pedrosa    11:56:26 — Arquivado em: Sem categoria

2 Comentários »

  1. Zezé , você é o verdadeiro modelo de superação ! Parabéns ! E vamos revitalizar nossa Comissão Cidadã , este instrumento tão eficaz de punição aos motoristas que usam suas habilitações como verdadeiros portes de arma …

    Comentário por Marcelo Nogueira — sábado, 6 de setembro de 2008 @ 18:42:09

  2. Maria José Amaral - Zezé para os que a conhecem mais de perto - é um exemplo raro de mulher-fortaleza.
    Sua história pessoal sria insuportável para a imensa maioria e nós.
    Para ela, um desafio gigantesco - centimetro a cetrimetro superado - e um convite ao altruísmo.

    Comentário por Fernando Pedrosa — segunda-feira, 8 de setembro de 2008 @ 10:55:22

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