Blog do AMIGO DO TRÂNSITO

Espaço para a livre manifestação sobre questões do trânsito brasileiro. Criado pela Ong TRANSITOAMIGO funciona como Tribuna Livre para críticas, denúncias e elogios. É também um espaço para a vítima, seus familiares e amigos.

19/8/08

ROSTO E HISTÓRIA - Claudia Vidigal

PREVISÍVEL E EVITÁVEL. VAMOS FAZER A NOSSA PARTE

Sempre procurei ser independente e tinha uma vida muito agitada.
Baladas, trabalho, viagens, estudos, enfim era uma jovem “normal”, com muita vontade de viver. Cheguei a fazer até trabalhos como modelo de moda.
Em outubro de 1994, aos 28 anos de idade, sofri um acidente de carro na Via Dutra. Estava com meu ex-namorado que dirigia enquanto eu dormia no banco do passageiro reclinado e com cinto de segurança. Naquele exato momento muitos sonhos como morar sozinha, terminar a faculdade, ter uma família e filhos, foram interrompidos.
Fiquei tetraplégica.
No início, nem sabia direito o que era isso. O que é ser tetraplégica?
Na verdade, fora os profissionais da saúde, tetraplégicos recentes assim como quem está ao seu redor, nem imaginam o que é e vai ser dali para frente.
Ser tetraplégico significa ficar preso a uma cadeira de rodas pelo resto da vida…
Ser dependente de pessoas para sair da cama, tomar banho, escovar os cabelos, se alimentar, beber, etc., etc…
Todas as atividades que eu tinha e que muitos ainda têm e para as quais nem damos valor, deixei de fazer.
Fiquei 4 meses e meio no hospital, com muitas complicações: trombose nas pernas, 5 paradas respiratórias, um mês entubada na UTI, pneumotórax (água no pulmão), escaras (feridas de dificílima cicatrização). Já imaginou o custo de tudo isto somente para uma pessoa? Fora as outras coisas que temos que comprar: cadeira de rodas, adaptar a casa, etc, etc…
A partir do momento que saí do hospital me envolvi em campanhas para, naquela época, aprovar o novo Código de Trânsito que está em vigor. Foi um trabalho árduo que envolveu milhares de pessoas do país inteiro, mas conseguimos!!
A partir do momento que saí do hospital me envolvi em campanhas para, naquela época, aprovar o novo Código de Trânsito que está em vigor. Foi um trabalho árduo que envolveu milhares de pessoas do país inteiro, mas conseguimos!!
Também virei palestrante em escolas públicas e particulares para tentar, com meu exemplo, sensibilizar os jovens de que a mistura álcool x direção não combina. Que se ele não morrer ou matar outras pessoas, pode ficar em uma cadeira de rodas e ter que enfrentar tudo o que enfrento hoje. Mas, depois de passado o trauma, comecei a ver o mundo de forma totalmente diferente. Passei a valorizar as pessoas ao meu redor e a ouvi-los, porque também achava besteira todos os conselhos que recebia de meus pais.
Hoje, passados 14 anos, vi que pouca coisa mudou em nosso país em relação aos acidentes de trânsito. Vejo que o Governo ainda não tomou as medidas necessárias para coibir de forma enérgica a venda de bebidas a menores. Que o número de vítimas continua o mesmo, sempre muito elevado, principalmente de jovens que continuam em baladas bebendo e morrendo pelo caminho na volta para casa. E pior ainda, festas raves e muitas drogas poderosas que não conhecíamos no passado.
Quando será que o Governo vai tratar os acidentes de carro como uma doença social, onde morrem mais pessoas anualmente do que em uma guerra ao longo dos anos? Onde atrás de cada número estatístico, existe um rosto e sonhos que foram bruscamente interrompidos. Sim, porque as estatísticas também erram ao ver só os que morrem na hora, ignorando as que morrem uma hora ou até meses depois em decorrência daquele acidente. E isto não é fatalidade, é falta de vergonha de enfrentar o problema da educação.
Mas me encho de esperança porque percebo que há ainda seriedade e compreensão por parte de algumas autoridades para a dimensão do problema. A promulgação da Lei 11.705 que pune com severidade quem bebe e dirige é esse sinal claro de que podemos reverter esse quadro trágico.
Entretanto, não posso deixar de dizer, como advogada formada que sou, da minha indignação pela não punição exemplar aos condutores responsáveis por acidentes de trânsito. Acho que esta tese de considerar o fato como crime culposo (sem intenção de matar ou ferir) é um absurdo e caba por disseminar a sensação de impunidade. Quem bebe e dirige sabe, exatamente, os riscos no comprometimento de seus reflexos e reações. Um acidente nesse caso é perfeitamente previsível e, por isso mesmo, evitável.
Prevenir, tratar e curar esta doença fica, com certeza, muito mais barato do que manter pacientes hospitalizados.
Não podemos ficar parados e achar que com nossa família nada vai acontecer. Assim como aconteceu comigo, pode acontecer a qualquer um, em qualquer lugar e a qualquer hora.
Sociedade, governo, autoridades e cidadãos. Façamos cada um de nós o que nos compete fazer e mudar o que precisa ser mudado.

Claudia Vidigal

criado por fernando_pedrosa    20:28:34 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Que depoimento fantástico.
    Que exmplo de superação.
    Precisamos de mais “claudias” nesse nosso Brasil de heróis efêmeros e sem conteúdo.
    Parabens a ela e ao blog

    Comentário por Jurandir Pasqualino — quinta-feira, 28 de agosto de 2008 @ 18:20:48

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